domingo, 18 de junho de 2017

Eu amo alguém que tem um alvo nas costas.

Sim. Amo.

Parafraseei essa frase do trailer do filme do Tupac.
Ouvi da personagem que faz a mãe dele e isso ficou doendo em mim pra sempre.

Amo vários alguéns nessa situação.

Faz um tempo que queria retomar esse blog, e faz quase a mesma quantidade de tempo que queria escrever sobre isso: homens negros.

E vou começar contando uma história real. Aconteceu comigo em fevereiro deste ano.

Domingo meio nublado, mas mesmo assim o combinado era levar meu pequeno Teodoro para curtir um bloco de carnaval de rua. A fantasia foi escolhida e comprada com antecedência, até a maldita espuma foi prometida. Com o pirata devidamente vestido e armado de sua espada, partimos.

Depois de algumas horas de circuito e um pouco de chuva resolvemos ir pra casa. Eu moro próximo, voltamos a pé. São pouco mais que 18h, está começando a escurecer.

Nos acompanha um amigo meu. Os dois resolvem apostar corrida numa calçada bem próximo de casa.

Cena normal, corriqueira. Tudo correndo na tranquilidade.

Segue a cena: uma mulher branca, aparentando uns 50 anos, está vindo na direção oposta na mesma calçada em que Teodoro está correndo alegremente. Quando ele passa pela mulher ela toma um susto e ergue as duas mãos, e ato contínuo, numa velocidade que nem sei descrever se vira pro meu amigo que corre pela margem da rua alguns passos atrás:

- Ai moço me devolve meu celular! Eu pago! Mas me devolve meu celular.

[preciso descrever meu amigo? Acho que maioria já entendeu, mas vou escurecer: negro, alto, cabelo com dreads quase nos ombros e sem camisa]

Nesse ponto eu me aproximo e rispidamente quase subindo na dita pessoa:

- Ah tá! Qualquer preto correndo é ladrão é???

Ela me ignora e segue pedindo para o "moço" o seu celular de volta. E ainda acrescenta a informação que foi assaltada há pouco tempo na rua mais embaixo e que precisa do celular. E que pode pagar.

Nesse mesmo momento o Teodoro para perigosamente na esquina e diz "Vamo Mãe!" e dobra a rua, meu amigo resolve retrucar a mulher.

- Olha, não sei de nada do teu celular! Te liga!
- Eu pago o que for! Só me devolve!
- Eu não peguei celular nenhum, a Sra. tá loka! (sobe um pouco o tom, mas ainda sem gritar)

Perdi uma parte da "conversa" por que o Teodoro virou a esquina e corri pra alcançar.

- Téo espera!!!!

Ele já tá parado perto da esquina e dispara:

- Mãe, ela achou que eu e o Fulano era ladrão?

Doeu. Doeu muito ouvir isso. Ele tem 6 anos! Ele tem 6 anos e não pode ser visto correndo alegremente pela rua?????

- Sim filho, ela achou. [não tenho o direito de mentir pra ele - e mais, algo dentro dele já sabia a resposta]

- Mas a gente só tava brincando de correr, eu até tava ganhando!

Nesse momento meu amigo nos encontra. Resmungando algumas coisas com os cabelos soltos, escondendo um pouco o rosto e olhos no chão.

Eu me sinto ferida de morte.

- Vamos ali no Paulista tomar uma cerveja - proponho um escape - . E vou comprar a maior porção de batatas fritas que ele tiver pra ti Téo, pode ser?

- Oba Mãe!

Seguimos os próximos metros num silêncio ensurdecedor.

No bar, enquanto o Téo se diverte com sua espada de pirata na calçada, o preto me olha e diz:

- Bah que véia loka! Eu até tô acostumado, mas a criança não tem nada a ver.... É foda.... o pior é que se me altero e aparece a polícia eu tomo uma ruim...

Comentamos o assunto, mas uma frase ressoa na minha cabeça martelando e doendo:

"Eu até tô acostumado"

De repente a realidade me dá um soco na cara, bem no meio da cara: nossos pretos são brutalizados pelos sistema racista dia-a-dia, sem trégua.

Meu filho aos 6 anos (SEIS) é um ladrão em potencial só porque decidiu correr na rua.

"se me altero e aparece a polícia eu tomo uma ruim"

Muito cedo um homem preto tem que se conformar com um injustiça, não pode reclamar, tem que se "acostumar" com essas violências para se manter VIVO.

Eu me vi mãe e amante de homens pretos violentados, e não pude fazer nada.

Não se trata de estabelecer um "sofrímetro" e medir quem é mais violentado pelo sistema racista, homens ou mulheres e todas as variações de gênero. Aqui temos a intereseccionalidade nos cortando e ferindo.

O que é fato é que nossa ancestralidade nos une. O racismo nos massifica e moe na mesma intensidade. Minha questão é entender esse mundo no qual a pessoa que mais amo vai mergulhar.

A violência e o genocídio dos nossos jovens homens negros é algo real, cruel e urgente de ser discutido, no entanto, quanto mais me aproximo da militância negra, mais uma questão reverbera na minha mente cadê os pretos??? Precisamos discutir com os homens negros essa questão, mas cadê???

Tem roda de conversa, discussão, palestra, curso, aula pública ou não, olho ao redor e vejo várias minas pretas, várias bixas pretas e os manos?

É possível que as pautas da negritude não afetem os homens?? Não. Acredito fortemente que não.

Então cadê????

Não sei responder. Queria muito, mas não sei.

Tenho pensado muito nisso e também observado nossa militância feminina a esse respeito. E o que mais vejo é "meio-Ubuntu". Explico: sou por que nós somos, mas só se esse nós for mulher preta como eu.

Antes que eu seja apedrejada, vou escurecer: acho legítimo e absolutamente necessário espaços de fortalecimento e militância de mulheres negras (de LGBTT's e etc) tanto que faço parte de um grupo lindo que trabalha nesse sentido. Estou aqui me referindo a algo que tenho notado e me corrói por dentro: será que não estamos fazendo o jogo do colonizador quando não separamos a vivência de homem NEGRO dos homens ao nosso redor??

Será que não estamos fazendo o jogo do colonizador quando só pensamos nas questões relativas aos homens negros quando dizem respeito a nossas relações sexuais-afetivas?? Não estamos também hipersexualizando nossos irmãos?? Em poucas palavras: estou falando de parar de enxergar todo e qualquer homem negro como um "parceiro sexual em potencial" (sim, amigas pretas, vejo isso com uma frequência assustadora).

Eu estou propondo aqui que a gente dê aulinha pros pretos ao redor? Que perdoe tudo em nome da "irmandade"?

Não.

Só proponho que caminhemos juntos, que a gente não perca a oportunidade de conversar com aquele colega de faculdade "palmiteiro" sobre seus relacionamentos, que a gente possa entender, compreender e confrontar amorosamente nosso irmão que namora uma preta super bacana e firmeza "escondido" da família. Que possa encontrar aquele colega antigo do colégio e de alguma forma dizer pra ele "cara, tenta a faculdade! Tu sempre foi um cara estudioso".

Proponho cuidado. Cuidado entre nós. Amor entre nós. Seja ele amor-romântico, seja ele amor-fraterno.

Essa vai ser a solução? Não. Mas é parte da estratégia que funcionou no passado, sobrevivemos cuidando uns dos outros.

Sou empurrada pra essa esperança cada vez que olho pro Teodoro. Queria muito poder descolar o alvo nas costas dele.

A proposta é Ubuntu real.
Que saibamos sair dos textões de Facebook e estender de fato as mãos aos irmãos e irmãs.


Bjs!!!






Em tempo: tenho plena noção do quão cansativo é ser mulher preta nesse mundo, somos as eternas educadoras, sei o quanto cansa ser didática sempre (com nossos filhxs, nossos amores e etc), então se for pra criticar esse ponto nem comenta aqui... me traga um novo ar pra essa discussão que tô precisando.....

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