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sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Heartbreak Anniversary - Mais uma de fossa.

Dessa vez não farei playlist.

Mentira 😂😂 Farei sim. Tudo tem trilha sonora.

Hoje faz exatamente 1 ano do fim de um namoro de 2 anos (um pouco menos segundo a PM, vulgo, ex) que me fez feliz.

Toca aí Heartbreak Anniversary do Giveon bem alto pra sofrer com classe!!

Just like the day that I met you, the day I thought forever
Said that you love me, but that'll last for never
It's cold outside like when you walked out my life
Why you walk out my life?

Sim, eu fiquei despedaçada, decepcionada, triste e rejeitada, porém orgulhosa de mim.

Eu, depois de tantas feridas e cicatrizes, aprendi a ser completa, a não precisar de ninguém e me permiti querer alguém.

E eu sinceramente me orgulho disso.

Dá trabalho se enxergar como alguém completo na solteirice, num mundo que te cobra uma vida em par. Eu vivi um casamento de mais de 10 anos projetado para ser pra sempre, onde amadureci muito, cresci e floresci gerando o Teodoro e de repente aquele mundo acabou e precisei me reconstruir. E nesse processo de colar pedacinhos de sonhos eu achei que nunca mais seria capaz de me interessar por amar alguém.

Aí temos Fulminante!

Aí você vem, me deu proteção
Baixou minha guarda, mexeu com a emoção
Tiro fulminante no meu coração
Já era, já era

Como eu disse, eu andava bem solteira e bem feliz, finalmente experimentando a sensação de felicidade na solidão. 

Solteira, porém não sozinha. O dito (não vou nomear pra não ser processada hahahahah) cruzou meu caminho a primeira vez em 2016, precisamente numa das comemorações dos meus 36 anos. Rolou uma boa química e tudo, mas não passou disso. 

Em 2018, num rolê aleatório no viaduto batemos os olhos de novo. Como não sou de perder tempo catei o contato lá nas profundezas do whatsapp e mandei o famigerado "oi sumido".

E dessa vez a coisa deslanchou. Voltamos a nos ver em julho e em agosto já nos víamos umas 3 vezes por semana, em setembro ele conheceu o Téo. E pronto, pra mim já era namoro.

Tudo fluiu tão bem.😍

E percebi que tava realmente disposta a me envolver e deixar alguém entrar na minha vida quando ele fez merda e eu quis ficar ao lado dele, mesmo podendo simplesmente sair, dizer um lacônico e cínico "é complicado..." e fingir que ele não existia. Eu sentei do lado dele, chorei junto e pensei: "Tô contigo.".

Eu senti que devia baixar a guarda e me deixar levar.

O início oficial só veio depois de muita conversa, o que devo dizer é novidade pra mim. Conversar foi o grande aprendizado desse relacionamento, ele achou que falei pouco e me abri pouco, mal sabe ele a vitória que foi. Pela primeira vez me senti forte o suficiente para dizer algo sem medo de que a pessoa fosse embora. Eu não tinha mais medo de ficar "sozinha".

A diferença de idade foi a minha primeira insegurança (por que 13 anos não são 13 dias né), mas ele disse que não era problema, e mais que dizer, ele me fez acreditar que não era. Muitos diriam que ele fez o "mínimo", mas só quem não nasceu negra num país racista não valoriza esse suposto mínimo. Sentir "eu mereço ser bem tratada" é uma luta para alguém que passou a adolescência sendo preterida e depois foi ejetada do seu projeto família feliz.

E também é um processo bem intenso amar um homem negro num país que brutaliza esses homens diariamente. Deixar de lado os esteriótipos machistas e racistas e abraçar uma relação que compartilha essas feridas e ser capaz de construir afeto é revolução.

Tudo bem que sou meio ONG de macho, confesso!!! A Deia que me perdoe😁. Mas eu me entrego de um jeito que sim, dou meu CEP sem cobrar aluguel, divido a comida, leio e corrijo trabalho de faculdade e indico vaga de emprego.

Mas também não entrego a toa. Eu tive o que precisava: carinho, parceria, bom papo, sexo e intimidade.

É gente, deixei o Cazuza com inveja, por que sim, eu tive a sorte de um amor tranquilo. Tive a coragem de me deixar levar por algo sólido e intenso, deixei que alguém me visse. E ele me viu e decidiu ficar. Eu amei cada detalhe dessa entrega, e busquei reabrir meu coração ferido.

Eu conheci alguém que me via, ouvia e sentia, mas não fui capaz de fazer o mesmo. Ou melhor, fiz mas fiz com medo, dizem que gato escaldado tem medo de água fria né?
Mas ok. Nunca é tarde. Me desafiei a enfrentar esse medo, e pela primeira vez em décadas falei sobre ter medo de não dar conta, de não saber como segurar a grandeza de um amor tranquilo. E descobri que falar é difícil, mas superar um medo é muito mais.

Enquanto isso ele me via, ouvia e sentia. E puta merda, como faz(ia) isso bem! Que sorte a minha! O problema é que esse poder de me olhar, fez ele enxergar as minhas zonas mais densas, e daí permanecer não foi mais possível. É mar desaguando no rio, violentando o rio, tirando o seu curso.

E assim ele foi.

Li essa semana um texto no Instagram da revista TPM que resume bem: uma mulher sobrecarregada é insuportável. E eu estava realmente exausta em 2020, até já contei por aqui...

Em maio ele começou a me deixar, só hoje sei disso. Foi quando ele decidiu que não valia a pena segurar minha mão na escuridão. Ele levou alguns meses pra organizar onde morar, um emprego melhor e partir. Foi ruim pra mim perceber isso porque minha primeira reação a essa constatação foi confirmar de que só posso ser amada se eu for "útil". Levei tempo pra remover esse pensamento da minha cabeça. Ainda é uma sombra sobre mim, confesso. Mas eu acendi a luz e posso encará-la de frente agora.

Em agosto, depois de passarmos um mês de julho bem cansativo com obra no meu apê, ele me mandou uma mensagem dizendo "não dá mais". Fiquei até tonta. Demorei pra entender que o cara da conversa estava terminando um relacionamento por mensagem. Uma vez reli a conversa e percebi que nem respondi direito as coisas. Perdi o chão.

Entre os argumentos dele estava o fato de que eu não "me abria", "não fazia questão" e etc. E eu só pensava: "porra! 2 anos depois essa conversa??!!". Aos poucos fui entendendo de que ele se sentia inseguro com a minha segurança. Ele até usou uma parábola pra explicar (por mensagem... acreditem...)



É muito ruim se sentir "foda demais" para alguém quando só se quer ser especial, única, amada, frágil e vulnerável. Eu tô cansada de ser a guerreira que dá conta de tudo de quem se exige tudo e a perfeição. Eu só quero colo, aconchego e dengo.

Hoje não sinto mais falta dele, demorou, mas consegui passar dessa fase. Sinto saudade muitas vezes.

Eu realmente me acostumei com a presença diária e apreciei a intimidade. Ter sido a pessoa que fica no mesmo cenário tem essa dorzinha extra: eu sinto falta dele quando a porta do guarda-roupa trava e penso "só o fulano que tem paciência pra fechar essa merda!", ou quando estou completando 4h ininterruptas na frente do PC e ninguém me chama pra deitar e beija meu pescoço, ou quando olho pro lado e ainda vejo um vão no meu quadro de medalhas da cabeceira exatamente onde ele ficava sentado na cama jogando xadrez no celular...

Ficou a saudade, mas o processo de superar também envolve reconhecer que sinto muito mais falta e saudade do que a pessoa representou, da possibilidade de amar e ser amada.

Eu botei fé na possibilidade de ter um amor tranquilo.

Mas é possível uma pessoa preta ter um amor tranquilo? Um relacionamento mobiliza coisas muito profundas numa mulher negra, no meu caso, são décadas de rejeição, de preterimento, de insegurança, de gente duvidando da tua capacidade, questionando a tua beleza e isso é muito difícil de lidar. Talvez isso explique por que ele tão rapidamente arranjou uma branca pra ele. (e ser trocada por uma mulher branca aciona muitos desses gatilhos, é um deja vu eterno)

Nesse processo eu passo a questionar não a escolha do outro, mas fico buscando a "minha culpa". E isso é muito injusto comigo, por que nesse caso específico, eu tava vindo de um momento muito turbulento da minha vida em que eu já tinha decidido que não ia me envolver com mais ninguém, e decidi conscientemente dar uma chance pra aquilo que tava sendo tão bom pra mim, que tava sendo tranquilo. Ciente de que não era uma necessidade, era só um querer.

Mas eu quis. Por que eu quis? Por que eu quis tão pouco? E, porque eu entreguei tanto? Eu tava lá pra ele nos momentos mais malucos da vida dele (até no projeto largarei tudo e serei massoterapeuta), e daí quando ele conseguiu caminhar com as próprias perninhas (ah, agora eu vou morar sozinho, agora tô com um emprego bacana) eu deixo de ser boa companhia?

Esses pensamentos são válidos, porém injustos comigo. Eles derivam de um processo de autoculpa que estou buscando controlar. Eu não estava no meu melhor momento, eu estava realmente sofrendo, 2020 foi muito ruim pra mim em muitos sentidos, todos os meus medos e minhas inseguranças vieram a tona, e ao invés de eu pensar "bah, que filhadaputisse! Me largou no meu pior momento!" eu fico me culpando por estar nesse momento. É muito enlouquecedor.

Aqui, pausa para a trilha.

Entra o Luiz Lins com A música mais triste do ano

Amor, quando o nosso vinho amargar ou perder o sabor
Quando a maquiagem borrar e as fotos perderem a cor
Tu ainda vai querer me aquecer quando não me restar nem calor?
[...]
Ainda vai sorrir quando eu for teu único motivo?
Ainda vai ouvir o que eu digo, mesmo quando eu só quiser falar de amor?
Ainda vai tentar me entender quando eu não fizer mais sentido?
E ficar comigo quando tiver visto o pior lado de quem eu sou?

E a resposta dele foi: NÃO. Pra todas as perguntas.

E doeu. E foi preciso lidar com a consequência da rejeição. Algo bem difícil e doloroso. Passa por se sentir insuficiente até suficiente demais. Mas no fim é apenas sobre respeitar a escolha do outro. E eu tenho que me lembrar de como EU processo isso, eu não tenho controle sobre o outro.

Então, mais uma vez, estar escrevendo sobre isso é terapêutico para mim, pra abrir as minhas veias e mostrar pra mim também e para possíveis leitoras de que uma mulher foda pode ser frágil, e que ser frágil faz parte.

E principalmente que as coisas podem ser boas por um tempo e deixarem de ser boas. E tudo bem.

As pessoas vão tomar escolhas que tu não vai concordar, tomar escolhas que tu não vai aceitar, e tu vai sofrer com aquela consequência, mas ainda assim isso não é tua "culpa".

Essa "meritocracia emocional" de "eu não merecia ser tratada desse jeito" é só mais uma bobagem desse mundo capitalista doente. Relacionar-se é uma via de mão dupla, sem perde e ganha. É dinâmico e é um aprendizado. Pra mim o que fica é que ele teve mais coragem do que eu jamais tive em nenhum relacionamento (até por que fugi sempre que pude). No momento em que ele teve tudo que precisava do relacionamento e acreditava que não podia ter mais ele pulou do barco. E eu estou dizendo justamente isso por que essa foi a metáfora que ele mesmo usou numa das intermináveis conversas por mensagem.

Ele se sentia como se eu nunca dividisse o leme do barco com ele. Pois é... só tem um porém: eu não tenho só um barco, eu tenho um iate. Eu tenho um navio de luxo e posso proporcionar lindas viagens para as pessoas que quiserem aproveitar, e que realmente não está "equipado" para quem quer pular e nadar.

E o fato de ter um iate luxuosíssimo e muito equipado leva a próxima questão: eu não preciso de ninguém pra remar comigo nesse barco, o meu barco já anda sozinho.

Eu quis alguém pra compartilhar esse iate? Quis.

Eu fiz o que eu achei necessário pra dar conforto para essa pessoa no meu iate? Sim.

Compartilhei coisas importantes? Segurei na mão da pessoa quando o barco balançou e ela segurou na minha? Sim e sim.

Mas, mesmo assim a pessoa quer nadar e eu preciso entender. Eu preciso entender justamente isso: que não é uma escolha minha e que não é um problema em mim, não é um problema meu. É difícil acomodar a ideia de que o meu iate não foi confortável o suficiente, mas é o jeito. Se a pessoa preferiu pular e ir pra uma canoinha padrão sem tensões raciais, sem grandes dilemas, apenas pra ficar boiando num pneu, bom, o que eu posso fazer?

Navegar num barquinho padrão de beleza "discreta" deve ser mais "emocionante" né? Afinal deve ser um alívio pra tensão racial, pois dá pra circular de "negro card" na CB naqueles rolês que servem drinks em potes e toca "eu quero botar meu bloco na rua" versão acústica e também um alívio para o ciúme, nada de ficar assistindo a namorada sambar seminua e brilhante por aí.

Eu estou feliz com isso tudo. De verdade. Aprendi muito com isso. Foi importante aprender que nem sempre as pessoas agem da forma como eu espero, nem sempre as relações acabam por faltas minhas, nem sempre a pessoa muda por uma atitude minha ou falta de atitude, nem tudo é sobre mim. Nem tudo está sob meu controle. E tudo bem.

Eu não vou me torturar. Eu fiz o que eu consegui, o que deu, o que de melhor eu podia fazer com as ferramentas que dispunha no momento. Lidar com a rejeição sem me culpar é a meta, e tô feliz com esse processo.

É sobre trocar a frase “Eu sou incrível, mas fulano não me quer” por “Eu sou incrível e fulano não me quer”. Parece apenas uma troca de palavras, mas é mais que isso. É sobre dizer: Ele não me quer e sigo sendo incrível.

Vou encerrar com um texto que uma amiga querida me mandou esses dias do Iandê Albuquerque. Um texto que me abraçou quentinho e reflete bem o lugar de que estou agora: num processo de ressignificar a minha vida emocional. A minha, só minha e todinha minha <3

eu queria te dizer algumas coisas que não tive coragem de dizer quando a gente acabou
queria te dizer que eu realmente gostaria que a gente tivesse junto
que tentássemos dar certo
mas eu sempre acho que tentar demais é teimosia
e o amor não merece isso
mas talvez eu esteja errado, não sei
fiquei puto pelas coisas que você fez
por um tempo guardei mágoa
mas eu tô aqui para te dizer que a gente deu certo sim
em algum momento a gente deu certo
e foi lindo
as memórias que escolhi guardar de vocês são boas
e espero que você guarde boas lembranças de mim também
a verdade é que somos totalmente diferentes
e apesar de não conseguirmos harmonizar isso
esses dias eu pensei na gente e pensei com carinho
porque acho que merecemos isso
não importa o que se deu no final
não interessa se a gente não conseguiu manter uma despedida agradável
Pensei na gente pulando o carnaval, do show, daquele pôr do sol
da nossa primeira transa
de estarmos apaixonados e desejarmos conquistar o mundo com o nosso amor
foi curto, durou pouco
ou eu que esperava durar bem mais
mas foi intenso
e é sobre isso que eu escolhi observar
porque o tempo não dita a importância de um amor
o que significa é como a gente se entrega e vivencia ele
a gente se confundiu, se perdeu
deixou um outro ao outro se esvair pelas nossas mãos
mas somos pessoas incríveis sim
só não estávamos na mesma vibe, sabe?
o que você me deu talvez não era o que eu queria naquele momento
e o que eu tinha para te dar talvez não fosse o que você merecia
às vezes a vida tem disso, né
por mais que a gente sinta uma conexão gigante
por mais que a gente tenha vivido momentos incríveis juntos
em algum momento a gente se perde
acontece
aconteceu com a gente
e depois a gente aprende que até as coisas incríveis acabam
duram o necessário


depois a gente aprende que até as coisas incríveis acabam duram o necessário
Texto de Iandê Albuquerque do podcast Para todas as pessoas intensas

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Sou aquela que merece carinho e terapia.

Maioria que lê aqui sabe que em 2015 passei por um grande baque que foi o meu divórcio. Sofri publicamente pela primeira vez na minha vida e recebi abraços até de gente "estranha" e me senti super bem.

O divórcio bagunçou minha vida completamente, me mobilizou demais. O ex-marido me deu a boa nova num sábado e minha qualificação de mestrado estava agendada para a quinta. Nunca vou me esquecer que a Mãe e a Desi tiraram o Téo de casa justamente para eu finalizar o texto e ele "aproveitou" para essa conversa.

Na quinzena seguinte era casamento da minha irmã mais nova, lá em SC, o Natal e Ano Novo já programado, lista de presentes ajustada, férias em família em Salvador com passagens e hospedagens pagas.

Para tudo. Cancela. Reorganiza. 

E eu fiz tudo.

Fiz a qualificação.

Comprei uma passagem de avião e fui pro casamento em SC só com o Téo.

Fiz uma escala para o Natal.

Reorganizei a lista de presentes.

Refiz os planos de final de ano.

Aceitei um cargo na Direção da escola pra ter um pouco mais de tempo pra dar atenção ao Téo.

Levei o Téo para Salvador.

E me inscrevi na seleção do Grupo Atinuké - estudos sobre o pensamento de mulheres negras para dar uma organizada na vida acadêmica e ganhei um sentido de vida.

O ano de 2016 foi uma loucura.

Quando penso em tudo que fiz eu acho difícil de acreditar. 

Eu fiz tudo que era necessário, e não me arrependo. Vendi a casa que montei peça por peça, me despedi dos projetos de mais de uma década, abandonei o carro com bancos de couro e comprei um remendado com fita tape, encarei um cargo de direção (sendo vice diretora, supervisora, orientadora e professora ao mesmo tempo) e passei a ficar assustadoramente sozinha nos finais de semana sem o Téo.

Tenho orgulho de tudo isso, mas foi um esforço emocional que quase me matou.

Encontrar as Atinukés foi uma benção. A palavra Atinuké em yorubá significa "aquela que merece carinho desde o ventre", é sinônimo de cuidado.

Foi a primeira vez que entendi que a rede de apoio que sustentou a minha vida todinha não era privilégio meu: mulheres negras sustentam o mundo.

Fiz minha inscrição num grupo de estudos achando que ia para mais um GT bem clássico, pra fazer umas leituras e concluir o mestrado, e encontrei carinho, apoio e amor.

Encontrei mulheres muito foda, admiráveis, fortes, quase inacreditáveis e FRÁGEIS e isso mexeu com coisas muito duras e arraigadas dentro de mim.

Lembro como se fosse hoje das primeiras conversas e leituras. Tudo que era falado era tão familiar, era como encontrar minha história na boca de outras pessoas.

Eu comecei a me recompor na companhia e no colo das minhas irmãs.

Foi tudo tão lindo que até um sonho antigo, o de desfilar na Imperadores o ano de 2016 me deu. Virei Cabrocha e me redescobri bonita.

O grupo me fortaleceu, apoiou e acarinhou, mas não tinha como resolver demandas individuais.

Foi terapêutico mas não era terapia.

Para chegar na terapia eu tive que romper com o auto-estigma "eu dou conta" de tudo, o "eu resolvo" e admitir minha própria fragilidade. 

Em 2015 eu liguei o "modo sobrevivência" e tive sucesso, não posso negar. Mas qual foi o custo disso? São incríveis os mecanismos que o nosso cérebro e espírito desenvolvem para não enfrentar certas emoções.

Eu me permiti sofrer, mas não me acolhi. Lutei ferozmente para colocar a decepção embaixo do tapete. Me recusei a admitir o quanto eu me senti fracassada pelo fim do meu casamento, pelo fim do meu projeto de vida. 

Sim, eu me sinto fracassada. E escrever isso aqui ainda dói, e eu nunca me permiti assumir isso em voz alta.

Eu dei conta de tudo, trabalhei muito, comecei um doutorado, arrumei novos empregos, fui reconhecida pelo meu trabalho, comprei uma casa nova e mobiliei.

MAS

Passo o tempo todo me sentindo humilhada por ter precisado de ajuda financeira da minha mãe e da minha irmã.

Me sentindo uma mãe terrível por ter tirado o Teodoro da casa que construí para ele crescer.

Me sentindo fracassada por não ter falado o que me incomodava no meu casamento.

Me sentindo idiota e infantil por ter acreditado que amor era suficiente.

Me sentindo incompetente por ter passado no concurso dos sonhos e ainda assim nunca ter sido nomeada.

Me sentindo fracassada.

Sim, num nível consciente sei que algumas dessas coisas não estão sob meu controle, e que nem podem ser consideradas um fracasso.

E não ter controle também é um fracasso pra mim.

Eu fui percebendo isso aos poucos. Ou melhor, percebendo e sufocando. 

Eu mantive o modo sobrevivência ligado e segui firme. Mas a cada coisa que dava errado eu sentia a ferida latejar. 

Iniciei a compra de um apê e não deu certo, perdi uma boa grana

Passei no doutorado, tive a bolsa negada e ainda tive que encarar racista descarado duvidando da minha capacidade de estar onde cheguei.

Passei no concurso dos sonhos e tive que recorrer a justiça para me manter no páreo, e no fim perdi a vaga.

Voltei a ter 40h na rede estadual, com salário parcelado e atrasado, em duas escolas em dois bairros diferentes.

A ferida sufocada latejando a cada dificuldade. Eu não sei lidar com a falha, eu sinto como se as falhas corrompessem o meu SER.

Ser forte e dar conta de várias coisas é um habilidade que me torna muito eficiente em alguns campos, mas me traz um gasto de energia emocional absurdo.

Soube recentemente que posso ser uma "overthinker", alguém que tem uma necessidade irresistível e avassaladora de analisar tudo o que pensa, de pensar sobre tudo, planejar e pensar e pensar e pensar de novo. É uma tendência a monitorar, avaliar e tentar controlar excessivamente todos os pensamentos, de analisar causas, consequências e possibilidades de tudo.

Isso não é necessariamente ruim repito. Por que me torna uma pessoa eficiente em vários campos. Mas também me levou a exaustão. Por que muitos dos pensamentos nada positivos também entram nesse processo alucinante de pensamento. E as minhas falhas, derrotas, dissabores e dores também ganham força e tamanho nesse processo.

No segundo semestre de 2018 eu me sentia muito cansada. Exausta.

Com as merdas no Estado precisei aceitar qualquer trabalho que me rendesse qualquer dinheiro.

E como sempre eu fiz tudo: dei aula, escrevi livro, plano de aula, dei palestra, fiz show com as Cabrochas, cuidei de tudo relacionado ao Teodoro. E ainda me apaixonei e decidi conscientemente me deixar envolver.

E tudo isso sem deixar de me sentir fracassada.

Isso é bem estranho né? Como pode uma pessoa que conquistou tanto ainda se sentir um fracasso?

A questão é justamente essa: não lidar com a frustração. Não aceitar as frustrações como parte da vida, apenas ver isso como um fracasso e se culpar por isso.

Eu nunca busquei entender isso de forma mais profunda, afinal faz parte do meu processo achar que devo dar conta de tudo. Mas preciso dizer que nós, mulheres negras somos socializadas e criadas em condições tão extremas de sobrevivência há tantas gerações que não sobra tempo pra ser frágil, pra ser triste. É uma sucessão de "engole o choro" sem fim. Lidamos com todas as oportunidades como se fossem as últimas e únicas (por que muitas vezes são), temos que tirar nota 11 e ainda somos questionadas sobre nossa competência. Uma mistura de racismo com machismo que nos sufoca.

Encontrar as Atinukés me trouxe consciência disso. Eu comecei a entender melhor o quanto as que vieram antes de nós pavimentaram com muito amor e dedicação o caminho que trilhamos. E principalmente comecei a identificar o quanto as mulheres que me formaram foram extremamente fortes, suportam coisas inimagináveis e se mantiveram firmes.

Essa constatação num primeiro momento pesou muito. Costumo dizer que temos uma "régua alta", uma grande responsabilidade com esse legado. O desafio é honrar esse legado sem comprometer nossa própria trajetória. Buscar entender que muito do que elas passaram foi justamente para que a gente não passasse, muitas das nossas foram impedidas de estudar, mantiveram casamentos de merda e nos ensinaram a não repetir isso. O fato de terem feito tudo nisso com um sorriso no rosto não pode nos fazer esquecer que dói.

Em 2019 a minha exaustão chegou ao topo. Eu tentava me enganar dizendo que todos aqueles sintomas eram apenas cansaço: dores pelo corpo, sono que não revigora, dores de cabeça e pensamento extremamente acelerado. 

E mesmo sendo a pessoa que falava muito sobre "autocuidado" com as amigas, eu me recusava a admitir que eu precisava de ajuda. Afinal, fazer terapia em vários momentos me soava como uma derrota. Mais um fracasso pra lista. Afinal, eu "preciso dar conta".

Aqui fica uma dica pra quem me lê: não confunda autoestima, vaidade e "skincare" com "saúde mental". Digo isso de camarote. Não me falta vaidade, nem autoestima, nem gratidão. Todos essas estratégias de autocuidado são válidas e bem vindas, mas elas são apenas parte do cuidado com a tua saúde mental. Em muitos casos lidar com emoções mais duras requer autoconhecimento e para se chegar nesse ponto muitas vezes precisamos de ajuda, de terapia.

Pra muitas de nós uma rotina de bem estar é uma grande conquista sim, descansar é um luxo necessário, que deve ser cultivado e celebrado. Rotina de bem estar é terapêutico, mas não é terapia.

Eu não abri espaço para terapia na minha vida por que acreditei que enquanto eu me mantivesse "positiva", "lutadora" e "forte" tudo ia se resolver. E a dor só aumentando, afinal como eu poderia ser uma pessoa linda, maravilhosa e ainda me sentir triste e fracassada? Que vergonha!!! Tu é forte, """tem que aguentar""""!!!

Quando tive alguns sintomas físicos de exaustão tomei umas broncas do namorado e marquei uma consulta com uma psicóloga pela primeira vez. E nunca fui. Arranjei todo tipo de desculpas e desmarquei umas 5 consultas no ano de 2019.

Cheguei a bater o carro.

Tomei a dura decisão de deixar a sala de aula e encarar um cargo administrativo, mais próximo de casa e também com a possibilidade de retomar a escrita da tese (que me dói ainda).

Fechei o ano de 2019 completamente exausta.

Tomei decisões muito sensatas e acertadas, trabalhar mais próximo de casa, parar de pagar pra trabalhar e vender o carro, levar menos trabalho pra casa e voltar ao doutorado, mas ainda todas essas decisões ressoavam como um fracasso, uma derrota, uma demonstração da minha vulnerabilidade inaceitável.

Uma parte de mim ainda não aceitava mais uma mudança de rota. Uma parte de mim gritava: "Como assim??? Vai mudar de novo??? Tu não acerta uma!!!!"

A meta de 2020 era encarar a terapia. Além de exausta eu também sentia que estava sobrecarregando a única pessoa que permiti ver esse processo, o meu namorado na época, e não me parecia justo.

Veja, mais uma vez, eu estava me sabotando, me recusando a encarar um processo necessário apenas por mim mesma. Meu processo "overthinker" busca justificar as coisas e só encontra conforto quando posso fazer algo por alguém, o que é para mim, se não for ""natural"" não é válido.

O ano de 2020 começou bem, fui viajar a Salvador, um lugar que eu amo, com todas as pessoas que eu amo. Comecei com muita esperança, até um retorno a Imperadores aconteceu. Ainda tentei fugir da terapia, "Eu vou depois das férias", "Vou esperar passar o Carnaval", funcionaram e marquei uma consulta para março.

Vocês sabem o que aconteceu em março.

O ano de 2020 nem preciso dizer que foi terrível pra todo o planeta. E pessoalmente marcou o meu colapso. Quando a pandemia começou eu tinha certeza de que ia morrer. E tudo que sempre usei como mecanismos de autocontrole parou de funcionar: eu não tinha mais uma rotina louca de idas e vindas entre duas escolas, possibilidades de sair e tomar um porre no final de semana, e etc.

E surgiram outras oportunidades de trabalho, em meio ao caos eu juntei um grana que não imaginava. E trabalhei muito!!

Mas meus pensamentos estavam me exaurindo.

A consulta de março foi cancelada e a incerteza dos primeiros meses de pandemia me enlouqueceram. Meus pensamentos se tornaram extremamente acelerados e opressivos. E tudo isso que estou relatando aqui só consigo raciocinar depois de um ano.

Enquanto isso acontecia eu apenas colapsei. Nem o meu modo sobrevivência foi capaz de me fazer ficar confortável.

Eu fiz tudo que tinha que fazer: trabalhei, cuidei do Téo, trabalhei mais um pouco e fiz uma reforma na casa. E chorei. E me senti envergonhada por estar viva, segura, empregada e triste.

Pra fechar o pacote tristeza meu namorado me deixou. Um coração partido no meio de isso tudo era o que eu menos precisava. Eu perdi um amigo, mais do que um namorado. Mas sobre isso falo depois.

Durante o auge da pandemia tentei remarcar aquela consulta de março, mas perdi a vaga. Recebi a indicação de outra psicóloga e travei. A desculpa oficial foi o atendimento online, mas a realidade era que eu não conseguia pedir ajuda.

Eu estava assustadoramente triste e ansiosa. E quando perdi meu namorado-amigo me senti também assustadoramente sozinha. Abandonada.

Tomei coragem e agendei a terapia online. No dia marcado inventei uma desculpa e não fiz a chamada, e passei a hora toda da consulta sentada na minha poltrona chorando.

Finalmente parei de fugir, mas as primeiras consultas foram extremamente dolorosas. Levei uns dois meses pra ter vontade genuína de fazer a chamada, no dia da sessão sempre pensava em alguma desculpa pra faltar, adiar ou atrasar. Me esforcei pra manter a regularidade e não me arrependo. Já são 10 meses de conversas semanais que me trazem alívio e acolhida.

Tem sido uma jornada muito difícil, eu ainda preciso de muito esforço mental para me sentir merecedora desse espaço. 

Inclusive escrever aqui sobre isso é uma etapa fundamental pra mim. É parte da minha escrevivência.

Aos poucos tenho feito as pazes com as minhas falhas, frustrações e medos. Precisei de ajuda de uma psiquiatra, e mesmo adiando ao máximo me sinto satisfeita por ter rompido mais essa barreira (mesmo que os primeiros comprimidos foram engolidos com lágrimas de auto-desaprovação). Foi tão difícil que só depois de 4 meses de tratamento tive coragem de contar pra minha família.

Sigo com o pensamento acelerado e um pouco triste, mas já me culpo menos por isso. Ainda preciso que a Priscila me diga em cada sessão "Esse é o processo, e tu tá indo muito bem" pra não desistir.

E hoje ao ver a ginasta Simone Biles deixar de participar da final olímpica para cuidar de si me senti quase que envergonhada... Que mundo é esse em que não podemos nos sentir confortáveis nem no topo?

Minha crença de que a nossa doença se chama colonização fica mais firme. Como nos ensina bell hooks, as emoções reprimidas foram a chave da nossa sobrevivência. Sobrevivemos, e agora devemos honrar nossos ancestrais VIVENDO. E vivendo de amor.

Eu abri as comportas desse mar que me habita e inunda. Não tem mais volta.

"A arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de nos conhecer e afirmar"

"Algumas vezes a gente se olha e vê tanta confusão, tanta dor, que não sabemos o que fazer. Então precisamos procurar ajuda. Às vezes ligo para meus amigos e digo: "Não consigo entender o que sinto e não sei o que fazer, você pode me ajudar?" Muitas mulheres negras não têm coragem de pedir ajuda, pois isso significaria um sinal de fraqueza. Precisamos nos livrar desse condicionamento. Ter capacidade de pedir ajuda significa que temos poder. Cada vez que buscamos ajuda nosso poder aumenta, ao invés de diminuir. Experimente. Geralmente buscamos ajuda em momentos de crise. Mas podemos evitar a crise se reconhecermos nossa dificuldade em lidar com uma determinada situação. Para as mulheres negras acostumadas a manter o controle das situações, pedir ajuda pode 
significar a prática do amor, da confiança, reconhecendo que não precisamos resolver tudo sozinhas. A prática de se amar interiormente nos revela o que o nosso espírito necessita, além de nos ajudar a entender melhor as necessidades das outras pessoas. As mulheres negras que escolhem ( e aqui enfatizo a palavra "escolhem") praticar a arte e o ato de amar, devem dedicar tempo e energia expressando seu amor para outras pessoas negras, conhecidas ou não. Numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, os negros não recebem muito amor. E é importante para nós que estamos passando por um processo de descolonização, perceber como outras pessoas negras respondem ao sentir nosso carinho e amor."

Escrevo aqui pra ti amiga, pra te encorajar nessa viagem, e para que eu leia isso de vez em quando, cada vez que eu titubear.

Pra que eu saiba que eu posso fraquejar, que isso não apaga nada do que sou. E que eu sou um monte de coisa, e nada disso é contraditório. 

A afirmação é o primeiro passo para cultivarmos nosso amor interior. Uso a expressão "amor interior" e não "amor próprio" porque a palavra "próprio" é geralmente usada para definir nossa posição em relação aos outros. Numa sociedade racista e machista, a mulher negra não aprende a reconhecer que sua vida interior é importante. A mulher negra descolonizada precisa definir suas experiências de forma que outros entendam a importância de sua vida interior. Se passarmos a explorar nossa vida interior, encontraremos um mundo de emoções e sentimentos. E se nos permitirmos sentir, afirmaremos nosso direito de amar interiormente. A partir do momento em que conheço meus sentimentos, posso também conhecer e definir aquelas necessidades que só serão preenchidas em comunhão ou contato com outras pessoas. Onde está o amor, quando uma negra se olha e diz: [...] "Vejo uma pessoa tão ferida, que é pura dor, e não quero nem olhar pra ela porque não sei o que fazer com essa dor". Aí o amor está ausente. Para que esteja presente é preciso que essa mulher decida se olhar internamente, sem culpa e sem censura. E ao definir o que vê, talvez perceba que seu interior merece ou precisa de amor. 

Eu sou aquela que merece carinho desde o ventre.

Eu sou aquela que vai se acolher no próprio ventre.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A Corte do Carnaval de Porto Alegre e o desmonte do Carnaval....

Sobre a Corte do Carnaval de Porto Alegre quero escrever umas linhas hoje....

E vou começar dizendo que sim, eu vejo todos os problemas do mundo na escolhida ser uma mulher branca.

E gostaria de coração de fazer “racismo reverso”, afinal pra isso acontecer de alguma forma a população negra teria que ter como oprimir e negar oportunidades a população branca e no fundo eu sou bem vingativa mesmo. Mas como não posso ser racista reversa, nem ter um unicórnio, vamos aos argumentos....

A escolha, sem desfile, sem festa com a Comunidade do Carnaval e seus simpatizantes, sem bateria tocando pras candidatas dançarem, sem torcida é a faceta pública e escancarada do que esta cidade e este Estado sempre fizeram com os negros gaúchos: apagamento.

São séculos e séculos construindo um Estado “europeu”, onde a """""pouca escravidão"""" que houve era “””“branda””””, onde não existem negrxs.

Mas nós existimos e resistimos. Resistimos aos cortes de verba, afinal Carnaval não é cultura. 

Resistimos aos despejos, afinal Carnaval no centro faz sujeira e baderna (blocos não fazem isso e o Acampamento Farroupilha também não). Resistimos as interdições e todos os tipos de violência.

Resistimos e fazemos o maior espetáculo ao céu aberto do Planeta Terra.

O carnaval é, sempre foi e sempre será uma festa negra. Mantida, financiada e organizada por mãos pretas. Mãos que apanharam e seguraram firme para chegar até aqui. E daí quando a beleza desse espetáculo tem que ter uma representante ela tem que ser branca???

Olha essa foto e me diz se tô loka ou tinha pelo menos outras 8 possibilidades????


“Mas Sherol, ela sabe sambar e já saiu no Carnaval outras vezes”.

Ok, vamos lá...

Ela sabe sambar? Até sabe, dá pra notar que ela foi nas aulinhas de samba da Academia Topzera...... mas no universo de 9 candidatas onde TODAS AS OUTRAS ERAM NEGRAS E MUITO MAIS ENVOLVIDAS NO CARNAVAL (no grupo temos gurias que fazem parte dos quadros das escolas desde a infância!) vence como representante máxima a candidata branca???

Ser Rainha do Carnaval não é ser finalista do BBB! É ser representante de uma festa popular ancestral, representar uma cultura e uma comunidade.

Ela já saiu no Carnaval outras vezes? Que bom! Segregar pessoas por cor da pele É COISA DE BRANCO. Na Comunidade Negra se tu chega pra somar, pegar junto, e tá firme na alegria e na tristeza é parte da comunidade sem sombra de dúvida. Negros e negras acolhem todos que vêm somar, só que exigimos respeito.

Será que dói na branquitude não ser protagonista o tempo todo???

As pintas chegam com a festa pronta e querem assoprar a vela do bolo e receber a homenagem?????

Eu estou há um ano frequentando bastidor do Imperadores e conheci e vi dezenas de pessoas que amam, vivem, se dedicam ao Carnaval o ano todo. O ano T-O-D-O!

Por favor, respeita quem pode chegar onde a gente chegou!! Respeita as Velhas Guardas, respeita as tias que furaram muito dedo costurando no barracão e xs manxs que sangram nos couros dos instrumentos!

Nós somos a resistência do Samba. Depende de mãos e mentes pretas a manutenção e a beleza desse espetáculo e ENTÃO O PROTAGONISMO JÁ É NOSSO, BASTA APENAS COLOCAR A COROA. E merecemos a Coroa!!

É como diz o Racionais: “Aí, Na época dos barraco de pau lá na pedreira. Onde cês tava? O que que cês deram por mim ? O que que cês fizeram por mim ? Agora tá de olho no dinheiro que eu ganho. Agora tá de olho no carro que eu dirijo. Demorou, eu quero é mais. Eu quero é ter sua alma.”

Daí também tem os argumentos dos baluartes da integração cultural, que foram lá no Facebook reclamar que quem tá querendo separar são os pretxs, e que Carnaval é cultura do Povo Brasileiro.

Quase chorei de emoção com esse argumento..... NO ENTANTO..... 

Temos aqui só mais uma exemplo de como o sistema racista estabelece a branquitude como norma nesse país. A cultura negra pode ser invadida, violentada e submetida por que se fazemos qualquer  esforço para proteger e defender aquilo que é nosso PAH! ESTAMOS SENDO RADICAIS E """RACISTAS""". Onde estavam esses baluartes da integração cultural quando fazer carnaval esteve a beira de ser crime de desordem pública??? Ano passado quando fecharam o Porto Seco e tentaram impedir de todas as formas NOSSO CARNAVAL onde estavam esses baluartes da integração cultural?????

E como cobertura temos a tentativa nada original de culpar a Praiana por ter colocado lá a candidata, afinal temos todas as condições de tocar o Carnaval sem apoio das instituições dominadas pela branquitude, falta "esforço" da comunidade negra não é mesmo??? Falta só me dizer que meus ancestrais foram escravizados por que não se esforçaram!!

Eu lamento muito o que as Diretorias tem que suportar para manter o Carnaval. Nada de financiamento público e patrocinadores que nos veem no maior clima de exótico.

E acredito que esse jogo só vai virar quando as Escolas redescobrirem a força de suas comunidades. E inclusive se organizarem a altura do espetáculo.

Não tem o Tesourinha pra fazer a escolha da Corte? Fazemos na rua! Botas as baterias a tocar e escolhe a Corte! Não tem grana e tem que vender a alma pra por a escola na rua? Faz uma vaquinha virtual e pega 1 pila de cada um e faz o Carnaval.

Mas também entendo a dor que isso é....

O racismo nos mói de muitas formas....

E a escolha de uma mulher branca, que representa a branquitude e o projeto colonizador e embranquecedor do Carnaval é só mais uma dessas formas. 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Sobre fins e recomeços e mudanças e afins

Já faz mais de um ano que estou separada, quase dois anos na real. Quem me conhece no mundo real ou acompanhou por aqui (ou aqui) conhece um pouco da história. Em resumo: conheci meu ex em 2004 e vivemos juntos até 2015, tivemos um filho (que hoje tem 7 anos), construímos casa e carreiras juntos. Muito amor envolvido, tínhamos muito em comum e fizemos grandes coisas juntos. Teodoro é o fruto mais belo e bem acabado disso tudo.

E um dia ele chegou em casa e disse que ia embora.

Daquele sábado normal de novembro de 2015 até agora muitas coisas se passaram. Minha vida teve que mudar radicalmente de rumo, meus planos que eram sempre no plural (eu + ele) passaram a contar apenas com a minha soberana vontade.

Isso é necessariamente ruim? Não, não mesmo. Mas é doloroso quando é forçado.

Uma das questões que mais me intrigam até agora é que, quase dois anos se passaram e muitas pessoas (muitas mesmo) seguem me indagando e comentando coisas do tipo:

- Não tem chance de vocês voltarem? (e suas variações...)
- Mas que coisa horrível! Vocês eram ótimos juntos, uma hora se acertam.
- Ele é pai do teu filho né? Então sempre fica alguma coisa...
- Tu ainda sente falta dele?
- O que tu aprontou?

Minhas respostas vão de grunidos, passando por "ah tá!" de desprezo chegando a grandes debates. Tudo depende de quem pergunta.

Explico:

- Não tem chance de vocês voltarem? (e suas variações...)
Afinal, o estado normal é estar junto, não interessa saber por que acabou, se tem alguém ferido ou coisa que o valha.
- Mas que coisa horrível! Vocês eram ótimos juntos, uma hora se acertam.
Aqui esconde-se a ideia de que alguém cometeu um erro e logo será perdoado e as coisas voltarão para o normal (normal = juntos de novo)
- Ele é pai do teu filho né? Então sempre fica alguma coisa...
A relação entre marido e mulher, pai e mãe mais uma vez sendo misturada e jogada junto com a criança na água do banho. Se ele é pai do meu filho, eu tenho que automaticamente perdoar/entender/compreender/satisfazer/amar e etc... e, portanto, buscar a volta à normalidade (normal = juntos)
- Tu ainda sente falta dele?
Essa sempre vem quando o interlocutor ou interlocutora "descobrem" que eu não tenho namorado. Se eu não substitui rapidamente a peça que me falta, é por que a antiga me faz falta. Sou um ser incompleto sem um homem por perto. [*olhos revirando ao infinito*]
- O que tu aprontou?
Essa parte de pessoas que nos conheciam, e logo, por saberem de nossas diferenças de personalidade (nossa! que novidade!), basicamente, eu a extrovertida, mandona e questionadora e ele o gentil, educado e sábio, deduzem logicamente, que EU fiz alguma coisa que desagradou o santo homem. Aqui temos pitadas de um machismo universal e cansativo também.

Mas percebam: DOIS ANOS depois e as pessoas seguem uma única lógica: eu não posso viver sem marido.

Não penso nisso muitas vezes, mas toda vez que tenho que responder essas e outras questões correlatas essa reflexão se faz em mim... E como tudo que penso gosto de escrever, uso esse meu diário online pra pensar.

A primeira coisa que penso é: porque essas indagações me incomodam tanto? Se já faz tanto tempo e tudo está onde deveria estar, por que me incomoda?

Se tem uma vantagem que o decorrer do tempo tem é nos dar a distância necessária para refletir sobre algumas coisas. Pra mim, hoje está muito nítido que boa parte do meu sofrimento se deu pela forma desrespeitosa como o final do meu relacionamento se deu. Não houve agressão física, talvez tenha havido uma traição (mas tô cagando pra isso), mas a violência envolvida foi a psicológica. A mais dolorida e extensa de todas.

Então cada vez que alguém pergunta sobre o fim do relacionamento insinuando que de alguma forma eu pretendo, no mais profundo do meu ser, que ele seja retomado, revivo aquele fim.

Vou tentar explicar.

Meu ex-marido deixou de me amar. Era (e é) um direito que ele e todos os seres humanos nessa terra têm. Várias coisas no nosso relacionamento (soube eu depois...) estavam incomodando e minaram o sentimento, a ponto inclusive dele se interessar por outra pessoa.

Ok, difícil. Bem ruim mesmo. mas vemos violência nessa descrição?!

Não, no máximo, sofrimento de um amor acabado.

Acabando aqui, eu ficaria numa deprê fudida, choraria os mesmos galões que chorei e logo poderia seguir em frente. E muito provavelmente, as perguntinhas elencadas acima não me afetariam de forma alguma, nem sequer fariam pensar.

Mas, não. Não acabou aqui.

Meu ex-marido deixou de me mar e fez questão de me culpar. Desqualificou mais de uma década de convivência. Me descreveu como um ser humano egoísta, fútil e interesseiro. Menosprezou minha carreira, minha dedicação a maternidade, meu corpo, a forma como eu faço sexo.

Usou tudo que sabia de mim pra me convencer de que o fato dele ter se desinteressado, se apaixonado por outra pessoa, cansado e etc... tinha relação direta com meu esforço sobre-humano para fazer da vida dele um inferno por mais de uma década.

Aqui eu sucumbi. E é aqui que as perguntinhas que insistem que eu devo voltar, ou que o certo é voltar pra isso aqui me deixam triste, indignada e revoltada.

Na primeira fase, transitei entre o acreditar e pedir perdão (afinal, ele sempre foi referência em gentileza e justiça, devia ter algo de razão naquilo tudo), e o pensamento desolador de que eu não conhecia aquela criatura que despejava todo aquele lixo sobre mim (afinal, ser arrastado por uma mulher terrível por mais de uma década não combinava com quem eu conhecia).

Fiquei mais de uma semana apenas reagindo ao mundo ao redor. Nesse tempo, ele apresentou uma amiga para o Teodoro (no primeiro final de semana de visitas) e todos ao redor me dizendo: "Ah olha aí! Sabia que tinha outra mulher envolvida!"

E eu só pensava: E daí????? Olhem pra mim, olhem pra issoooooo???!!!!

Não me importava se ele casaria na próxima semana, ou já estava casado na semana anterior. Meu interesse, fator de stress, de dor e sofrimento mais agudo era pensar: quem eu me tornei?? Eu não sei amar??? Como eu destruí, sendo egoísta, fútil e maquiavélica as coisas que mais amava no mundo??

Que tipo de sociopata me tornei por amor?? A casa onde morávamos, o filho que tivemos, que eu sonhei, planejei, batalhei pra ser lindo, pra ser amor, na verdade era produto de uma mente doente?????

E no meio desse looping, eu ainda tinha que responder para as pessoas sobre o novo relacionamento dele??? Vão a merda!!! Perguntem pra ele!!

Nesse momento eu tinha um par de olhinhos brilhantes me acompanhando. Teodoro fez poucas perguntas sobre a separação, ele quis saber se ia precisar sair de casa e se o papai traria ele de volta pra casa. Eu precisava dar conta disso.

A fase dois foi de pacificação, olhei para meu filhote e encontrei a resposta. Ele segurava na minha mão e me olhava com um amor profundo e límpido. Confiava em mim de um jeito puro.

Definitivamente eu não era um ser desprezível.

E no meio de tudo eu precisei me reencontrar, fazer as pazes com a minha história e entender o outro. Nesse momento entendi que ele optou pelo caminho mais seguro emocionalmente pra ele mesmo, atacou para se defender. Encarar as próprias falhas exige maturidade e generosidade num relacionamento que poucas pessoas são capazes. Eu mesma levei um tempo para entender as minhas, e uma delas foi a super expectativa que eu criei para o nosso relacionamento.

Em várias camadas de mim, foi crescendo a certeza de que não provoquei toda aquela violência. Meus erros não justificaram nenhum daqueles ataques a minha autoestima e ao meu caráter.

Levei um certo tempo pra entender tudo.

E se querem saber, não perdoei e acho que tenho esse direito. Posso entender, posso aceitar e devo viver com a escolha dele pro resto da vida, mas não sou obrigada a perdoar. Conscientemente ou não, ele escolheu me ferir para se proteger, usou tudo aquilo que uma vez criticou (inclusive o privilégio masculino) para sair do relacionamento "ileso". Isso não foi justo, nem comigo, nem com a nossa história. E isso não tem perdão.

Convivemos muito bem, dentro do necessário para manter o Teodoro seguro. É isso que importa.

Hoje vivo a fase cruzeiro. Fiquei apenas com aquele pesar de um amor acabado, de planos frustrados e só. Estou mais segura, entendi as minhas fortalezas e fraquezas. Reforcei uma crença antiga de que ninguém é perfeito e não perdi a fé no amor.

Isso quer dizer que estou a procura de um novo amor???? NÃO!

Mas, com certeza, sou um ser humano capaz de me entregar novamente a um grande amor.

A violência que sofri não vai me paralisar. Sigo acreditando que somos capazes de amar com olho no olho e respeito, e mais do que nunca sei o quanto o amor e um relacionamento são construídos para serem fortes, mas podem ser frágeis.

Então, quando me encontrar na rua me pergunta sobre meus projetos, elogia meu cabelo e minha disposição. Meu filho tem um pai ótimo, e meu ex-marido tá no lugar onde deveria ficar: no passado.

BJS!!!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

E aí? Como tu tá?

Amig@s!

O primeiro post de 2016 é dedicado as amigas e amigos que depois do meu atropelamento emocional se preocuparam comigo e seguem mandando mensagens e convidando pra beber,este post é uma resposta pra pergunta que mais ouvi nos últimos temos: E aí? Como tu tá?

Então, respondo: Eu estou bem.

E é de verdade.

Uma das melhores coisas que fiz foi me permitir sofrer. Me rasgar. Chorar até inchar a cara. Fazer isso publicamente, veias abertas. Recebi tanto amor em troca!

Depois veio as férias.

Descanso e overdose de amor com a família.

E fiquei bem. Assustadoramente bem. Deliciosamente bem. Em paz.

Fiz as pazes com a minha história. Descobri que não tenho arrependimentos de verdade, que tive o coração partido, mas não destruído. Tenho tanto amor que posso inundar um oceano. Não importa o que a outra parte diga. Eu estou bem com o que vivi.

Tenho meu filho. Tenho minha mãe. Tenho minha irmã. Tenho a Galera da Laje. Todos juntaram meus cacos, e de diferentes formas me mostraram que só erra quem não ama.

Daí o passo seguinte foi curtir! Rir com @s amig@s, beber umas cervejas e fazer nov@s amig@s.

Alguns de vocês podem estar pensando "Isso aê! Curtindo a liberdade!".
Daí vou ter que discordar. Não estou curtindo liberdade nenhuma. Eu sempre fui livre. Eu amei livremente, me entreguei livremente, vivi intensamente com liberdade.

Eu sou um turbilhão. Ter consciência disso me fez entender um monte de coisas. Não consigo ser pouco, fazer pouco, fazer metade. Pra uns isso é um problema, pra outros uma virtude. Pra outros deixou de ser virtude para ser incômodo.

O que faço com isso? Vivo! Vivo com o que sou.
Intensidade, talvez seja a minha palavra.

Daí o mimimi começa: pra quê sofrer em público? Por que isso??

POR QUE EU QUERO!
NADEI NAS LÁGRIMAS DO MIMIMI
KKKKKKKKKKKKKKKKKKK


E daí me veio a ideia nada original: e porque não comemorar essa pacificação com uma playlist???

Tendo superado a fossa, vamos fazer agora uma nova playlist: a Playlist do Reencontro! Mais curta, direto ao ponto, mas verdadeira.

Começamos com a aceitação, e a primeira balada chama-se Depois da Marisa Monte.


♬♮♫♩♫
Nós dois
Já tivemos momentos
Mas passou nosso tempo
Não podemos negar
Foi bom
Nós fizemos história
Pra ficar na memória
E nos acompanhar
Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também♪♫♩♫

Letra aqui.

O passo seguinte é a auto-reconciliação, daí entra na trilha Walmir Borges, com "Eu amei" (baita som!!!!)

Clica e ouve: aqui

♪♫♩
E é bom lembrar
Que eu amei
Eu amei
Teu jeito
Teu corpo
Seus defeitos e gostos
Eu amei
Eu amei
De todas as formas
Te vendo ir embora
Eu amei
Eu amei
Você
 ♪♫♩♫♭♪

Sim amig@s, eu amei!
E escancarei o amor e o desamor!
E a tal intensidade....

Mas, feridas curadas, a sensação é de que aprendi! Sem arrependimentos, sem traumas, vivi, amei e sigo!

Daí toca um pagode romântico, pra selar de vez esse pacto comigo mesmo e sambar na cara dos problemas!!!! (com o Thiaguinho que é lindo, pra ajudar mais ainda ;)

E a música se chama "Outra dia, outra história"


♪♯♬♮
Tô com o coração na mão
Transbordando de emoção
Vou tocar minha vida
Eu vou ser feliz!

Já não fujo do futuro
Aprendi demais com a vida
Vejo luz onde era escuro
Encontrei minha saída♪♬♮♫


Não é outra história, é a mesma história. Um novo capítulo. Mais intensa, sozinha sem ser solitária e em paz!

Então vamos encerrar essa playlist com mais animação: Grupo Bom Gosto - Curtindo a vida!

♪♫♩♫♭
Quer saber tudo tem um por que
Tô legal, quero mais é viver
Antes só, do que ser infeliz
Sei que vou encontrar diretriz
Pro meu coração...

Enquanto eu não encontro eu vou curtindo a vida
Enquanto eu não encontro eu vou tirando onda
Enquanto eu não encontro eu vou beijando em boca
Enquanto eu não encontro eu vou badalando
Enquanto eu não encontro eu vou pagodeando
Enquanto eu não encontro eu sou da boemia (da lua)♭♪♯♬♮♬♪♫


Vamos lá Amig@s, decorem esse refrão que essa é a vibe!!! #sambandonacaradatristeza #divandonopagode

♪♫♩♫Enquanto eu não encontro eu vou curtindo a vida
Enquanto eu não encontro eu vou tirando onda
Enquanto eu não encontro eu vou beijando em boca
Enquanto eu não encontro eu vou badalando
Enquanto eu não encontro eu vou pagodeando
Enquanto eu não encontro eu sou da boemia (da lua)♪♫


Amig@s, obrigada por perguntar. Obrigada pelos abraços. Obrigada pelas mensagens.

Eu estou bem. De verdade.

MAS POR FAVOR continuem me chamando pra tomar umas biras, lembrem-se de que tô na pista! kkkkkk

Enquanto eu não encontro eu vou badalando....
Enquanto eu não encontro eu vou pagodeando...
♪♫♩♫♭♪♯♬♮♫♩♫♭♪♯♬♮♬♪♫

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Playlist da Fossa

Um mês se passou desde que tomei o maior pé na bunda que tenho notícia...
É...
Um mês....
Tenho me virado relativamente bem.
E me deu até vontade de escrever aqui.

Ver um sonho ser destruído é bem doído, mas tento focar no fato de que no último ano consegui manter 40h de sala de aula, um novo mestrado com uma carga horária desumana e meu filho não se sentiu abandonado. Ele é a parte mais frágil nesse processo e ficou intacto, ele até sentiu minha falta, mas não se sentiu abandonado. E esse é um bom motivo pra seguir.
Não é fácil pra todo mundo, mas eu e ele sobrevivemos. Ele se sente amado, tanto que está encarando a separação de papai e mamãe de forma muito tranquila. O amor vence. Se não resiste, não é amor.

Mas é necessário viver a fossa. Sentir o coração doer e aos poucos fazer as pazes com ele.
Eu, particularmente, acho que estou batendo um recorde, um mês se passou, um mês longo pra mim, mas é só um mês, e já estou me sentindo saindo da escuridão.

E uma das armas para se passar por uma fossa é a música.

Eu tenho vivido uma fossa musical.

Na alegria e na tristeza todo mundo já passou pela experiência de escutar uma música e pensar “Ah para! Eu escrevi essa letra e não me lembro???”.
Enquanto ainda éramos “nós”, nós tínhamos músicas escolhidas para o casamento, trilhas cantadas ao pé do ouvido e publicadas no Facebook (até Camisa 10 foi dedicada pra mim, que ironia...), tínhamos até uma playlist que embalou o nascimento do Téo. Então nada mais justo do que fazer uma playlist do fim.

E como viver o luto é necessário, decidi comemorar o meu luto publicando a minha playlist da fossa.

Primeira coisa a declarar: sou sortuda. Sim, viver uma fossa monstro no mesmo mês em que a Adele lança um novo disco é de cortar os pulsos! E o pior é ouvir as músicas “animadinhas” do novo disco e pensar “Porra! Até a rainha do melodrama tá superando, e eu aqui arrastando corrente!”. (Então antes da playlist digita "Adele 25" no Google, curte o disco e chora um pouco.)

E não poderia ser com outra o início da playlist da fossa: Adele, "Dont you remember" que marcou o início da confusão toda....

"When will I see you again?
You left with no goodbye, not a single word was said
No final kiss to seal any sins
I had no idea of the state we were in

I know I have a fickle heart and bitterness
And a wandering eye, and a heaviness in my head
But don't you remember, don't you remember?
The reason you loved me before
Baby please remember me once more

When was the last time you thought of me?
Or have you completely erased me from your memories?
I often think about where I went wrong
The more I do, the less I know"

"Quando vou ver você de novo?
Você partiu sem um adeus, nem uma única palavra foi dita
Nenhum beijo final para selar qualquer pecado
Eu não tinha ideia do estado em que estávamos

Eu sei que tenho um coração inconstante e amargurado
E um olhar errante, e um peso na minha mente
Mas você não se lembra, você não se lembra?
A razão pela qual você me amou antes
Baby, por favor, lembre de mim mais uma vez

Quando foi a última vez que você pensou em mim?
Ou você me apagou completamente de suas memórias?
Porque muitas vezes eu penso onde eu errei
E quanto mais eu penso, menos eu sei
E quanto mais eu penso, menos eu sei"
   
Ouça aqui

É.....
Fui pega de surpresa, e Adele entendeu isso bem. Não sou santa, talvez até compartilhasse sem perceber da mesma sensação de infelicidade que ele, mas desistir nunca foi do meu feitio. Eu não esqueci das razões de amar. Mesmo vendo alguns dos nossos problemas eu estava disposta a tentar. 

E daí entra os Paralamas....

“Ela disse adeus, e chorou
Já sem nenhum sinal de amor
Ela se vestiu, e se olhou
Sem luxo mas se perfumou
Lágrimas por ninguém
Só porque, é triste o fim
Outro amor se acabou

Ele quis lhe pedir pra ficar
De nada ia adiantar
Quis lhe prometer melhorar
E quem iria acreditar
Ela não precisa mais de você
Sempre o último a saber”


Fase confusa essa de entender um outro ser humano que a gente supunha conhecer... Não sou criança, algumas coisas que ouvi até mereci, mas algumas me lembrou o Djavan

“Valei-me, Deus
É o fim do nosso amor
Perdoa, por favor
Eu sei que o erro aconteceu
Mas não sei o que fez
Tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei?
Eu só sei que amei
Que amei, que amei, que amei”


Ressecou? Morreu? Difícil de encarar... um jardim tão florido, tão lindo!

O que fazer???? Tudo girando ao redor!!!!!

Pra clarear a cabeça tu liga o rádio, e daí tá lá o Ed Sheeran cantando

Loving can heal
Loving can mend your soul
And it's the only thing that I know
I swear it will get easier
Remember that with every piece of ya
And it's the only thing we take with us when we die

“Amar pode curar
Amar pode remendar sua alma
E é a única coisa que eu sei
Eu juro que fica mais fácil
Se lembre disso em cada pedaço seu
E é a única coisa que levamos com a gente quando morremos”


Entendi a mensagem! Mais uma tentativa, corre atrás mulher! Não dá pra entregar os pontos assim!

Se há amor ele virá a tona!
Esperanças renovadas é hora de agir.


E o balde tem água mais gelada agora do que antes.
Não há possibilidade de conversa, decisão tomada.
E mais: culpas distribuídas.

Ah... Bono como tu tem razão.....

Is it getting better
Or do you feel the same?
Will it make it easier on you now
You got someone to blame?
 […]
 Did I disappoint you
Or leave a bad taste in your mouth?
You act like you never had love
And you want me to go without

Está ficando melhor
Ou você sente o mesmo?
Será que vai torná-lo mais fácil de você agora
Você tem alguém para culpar?
 [...]
 Eu te decepcionei?
Ou deixei um gosto ruim em sua boca?
Você age como se nunca tivesse tido amor
E você quer que eu vá sem

One – U2 (versão com a Mary J Bligde pra facilitar o derramamento de lágrimas)

Peraí.... essa merece ter a letra toda aqui....

Is it getting better
Or do you feel the same?
Will it make it easier on you now
You got someone to blame?

You say
One love,one life
When it's one need
In the night
One love
We get to share
It leaves you, darling
If you don't care for it

Did I disappoint you
Or leave a bad taste in your mouth?
You act like you never had love
And you want me to go without

Well, it's too late
Tonight
To drag your past out
Into the light

We're one
But we're not the same
We get to carry each other
Carry each other
One

Have you come here for forgiveness?
Have you come to raise the dead?
Have you come here to play Jesus
To the lepers in your head?

Did I ask too much?
More than a lot?
You gave me nothing now
It's all I got

We're one
But we're not the same
Well
We hurt each other
Then we do it again

You say
Love is a temple
Love is a higher law
Love is a temple
Love is a higher law
You ask me to enter
But then you make me crawl
And I can't be holding on
To what you got
When all you got is hurt

One love
One blood
One life you got
To do what you should
One life
With each other
Sisters, and my brothers

One life
But we're not the same
We get to carry each other
Carry each other

One... one
Uh, uh, uh, oh
Make, make it, make it
Ahh, ahh, oh
Ahh, ahh
And one
Ahh, ahh... oh

Traduzida? Clica aqui.

Depois de tentar arrumar e dar de cara na parede o jeito é encarar a separação de frente.
Casa vazia.
Esperanças jogadas no ralo.
Aqui a lista de músicas ficou infinita! Muitas coisas na cabeça, trabalho pra dar conta, filho querendo atenção....

Daí uma fagulha de vingança brotou! No auge da sofrência a trilha é RAÇA NEGRA! Sim, ex não podia suportar e eu adoro kkkkkkk

Sim, eu vou sofrer, chorar e me rasgar ao som de Raça Negra!!!!!

No vazio dessa casa ainda mora um coração
Dividindo o mesmo espaço com a minha solidão
Nas imagens e lembranças o meu pensamento voa
Eu entendo porque agora eu me sinto tão maturo

Eu tenho medo, de não achar a porta de saída
A solução que vai por fim a despedida
E é tão cedo, a gente ainda não viveu nossos cem anos
Envelhecermos juntos era o nosso plano
Mas como muda a forma que hoje você tem de me enxergar

(Refrão)
Anoiteceu, e eu não tive coragem
de acender a luz do nosso quarto
Pra me dar conta que você esta aqui só no retrato,
que eu não rasguei
Aconteceu, que apenas a saudade
vem fazer companhia nessa hora
A vida perdeu o sentido para mim, depois que você foi embora

Eu tenho medo, de não achar a porta de saída
A solução que vai por fim a despedida
E é tão cedo, a gente ainda não viveu nossos cem anos
Envelhecermos juntos era o nosso plano
Mas como muda a forma que hoje você tem de me enxergar

(Refrão)
Anoiteceu, eu não tive coragem
de acender a luz do nosso quarto
Pra me dar conta que você esta aqui só no retrato,
que eu não rasguei
Aconteceu, que apenas a saudade
vem fazer companhia nessa hora
A vida perdeu o sentido para mim, depois que você foi embora


É amig@s.... Não foi fácil chegar até aqui.
Um mês depois, cacos colados é hora de seguir. Fazer novos planos. Quem me conhece pessoalmente sabe que adoro planos, então eu tinha muitos pra nós.... refazer tudo vai dar trabalho, mas tem que ser feito.

E vem chegando aquele momento em que a gente começa a se dar conta que o fim estava próximo....

Canta “Soguizo Magoto” (#piadainterna)

"Perdão amor se levei tempo demais
Deixei uma porção de coisas pra trás
Errei em só olhar pra mim
Meu bem nunca te vi assim
Nem só de amor se vive uma relação
Cada detalhe que perdi foi um grão
E quantos grãos deixei cair
Será que já chegou ao fim?

Pior de tudo é perceber
Que você vinha dando sinais
E eu não vi"

Não conhece? Ouve aqui.

Mas será que eu tinha como ver? Essa será a dúvida da segunda fase da fossa.
Eu quando me senti infeliz abri o coração e encontrei uma palavra de encorajamento “Vai passar Amore, é só uma fase.”, tinha lógica ficar paranoica com o fim do relacionamento?
Será que me faltam alguns itens de mocinha-romântica-de-novela?
Eu acreditei, ignorei os sinais e me fudi.

Pra encerrar esse post ELA, a Musa Suprema, Dona do Universo: Beyoncé!

É miguxa eu sou uma “Broken-hearted Girl” e mereço vídeo de divância na sofrência!


O post termina aqui, mas a playlist é do tamanho da dor de cotovelo....

Então seguem mais algumas boas de chorar!

P.S.: não se preocupem amig@s, eu vou superar. Eu só estou me dando o direito que velar um amor que vivi intensamente e sentirei saudades.


Revelação - Se eu tivesse poder: https://www.youtube.com/watch?v=d5YkMLFDNKE

Jorge Aragão – O barraco desabou: https://www.youtube.com/watch?v=Q-KQOxYseUg

Paralamas do Sucesso - Quase um segundo: https://www.youtube.com/watch?v=2R0n5mfMl-8

Vanessa da Mata – Amado: https://youtu.be/4wegmGMUunk

Pra se rasgar de vez?