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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Dia do Historiador

Desde 2009 o dia 19 de agosto é dedicado ao Historiador. É um dia a se comemorar, mas também para mobilizar: apesar do reconhecimento ainda não temos uma profissão regulamentada.

Eu entrei para o curso de História para ser professora de História. É isso que mais me fascina. Fiz pesquisa e gosto também, mas quero mesmo é dar aulas. Nesse campo estamos razoavelmente instalados, apesar de ainda convivermos com formados em geografia dando aulas de História e graduados em História dando aula de filosofia, sociologia, geografia e etc...


Durante anos o debate sobre a regulamentação foi negligenciado. Eu acredito que por falta de mobilização da própria categoria. Liderados por Doutores confortavelmente alojados em suas cátedras universitárias os historiadores não viam necessidade em ser "profissão". Fazer História era paixão, "militância".

Mas não tem lugar pra todo mundo na academia. Isso é fato.


Atualmente temos dois projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional (um no Senado e outro na Câmara) que pretendem deixar mais claro a todos que os historiadores também são fundamentais nas instituições de memória, de salva-guarda do patrimônio:

Art. 4º São atribuições dos historiadores:

I – magistério da disciplina de História nos estabelecimentos de ensino fundamental, médio e superior;
II – organização de informações para publicações, exposições e eventos em empresas, museus, editoras, produtoras de vídeo e de CD-ROM, ou emissoras de televisão, sobre temas de História;
III – planejamento, organização, implantação e direção de serviços de pesquisa histórica;
IV – assessoramento, organização, implantação e direção de serviços de documentação e informação histórica;
V – assessoramento voltado à avaliação e seleção de documentos, para fins de preservação;
VI – elaboração de pareceres, relatórios, planos, projetos, laudos e trabalhos sobre temas históricos.
(projeto na íntegra aqui)



Outro fato: não só faltam lugares na academia como cresce a demanda fora dela. Principalmente na área da Cultura, especificamente na área de Patrimônio. Arquivistas, bibliotecários, museólogos, turismólogos já entenderam o recado e providenciaram suas vagas: atualmente não se pode ter um museu ou memorial sem um arquivista e um museólogo. A presença de um Historiador, o que na minha opinião é mais do que obrigatória no caso dos museus históricos, é "perfumaria", afinal, não existimos enquanto categoria profissional.


E aí?


O que faremos?

Continuaremos a reclamar que não somos consultados e deixar que museus históricos continuem divulgando o que bem entendem sem um mínimo de reflexão?Claro que é mais fácil reclamar....

Acho que caminhamos bastante, a ANPUH (graças ao Prof. Durval Muniz) finalmente entrou na discussão, e isso é extremamente salutar. O projeto de autoria do Senador Paulo Paim no Senado aparentemente caminha a passos largos, passamos já pelas comissão mais complicadas, Constituição e Justiça, e Trabalho.

Eu sou defensora ardorosa da regulamentação. Eu fiz um curso superior, mestrado e sou uma profissional. Amo o que eu faço, tenho paixão pelo ofício, mas também tenho um estômago. Estudei muito pra estar onde estou e quero ser reconhecida por isso.

Não acho que a regulamentação vai resolver todos os nossos problemas, mas acho que é parte da solução. Temos pela frente o desafio de pensar como será a atuação do Historiador frente a crescente "patrimonialização", teremos o poder de legitimar ou não determinados discursos, mas isso é pra depois....

Por hora vamos nos mobilizar e aprovar o projeto!

O último movimento foi quarta, o projeto chegou a Comissão de Assuntos Sociais e foi designado relator o Senador Cristovam Buarque, o que é positivo pois na outra vez que a matéria esteve nessa mesma comissão ele escreveu no relatório:


"Estamos convencidos de que, com essa regulamentação, além de se tornarem os cursos de História mais atraentes, uma vez que irá facilitar o acesso dos formandos ao mercado de trabalho, abrir-se-ão novos espaços ao historiador, que poderá colaborar de maneira mais efetiva na defesa do interesse coletivo, ao contribuir para a preservação de nosso patrimônio artístico e cultural.

A par desses aspectos, enfatize-se que, com a presente regulamentação, cria-se, finalmente, uma identidade legal do profissional da História. E, como bem asseverou o autor da proposta, num mundo onde a qualidade e a excelência de bens e serviços vêm se sofisticando sempre mais, dão-se condições ao historiador para que possa exercer sua profissão com amplitude de direitos, não permitindo a atividade a terceiros não qualificados tecnicamente ou sem formação adequada para o seu exercício
."


(íntegra aqui)

Eu tô com ele! Se tu tem twitter mande uma mensagem para ele solicitando aprovação @Sen_Cristovam , no site dele (aqui) tem mais outras formas de contato!

Aos Historiadores: PARABÉNS!!! \o/

terça-feira, 31 de maio de 2011

O Senado, História e o silêncio dos Historiadores

Hoje acordei mais indignada do que nunca, ontem cheguei em casa feliz depois de quase duas horas de um basquete bem pegado, tomei um banho, dei uma mimada no meu filhote e tava quase indo pra cama quando surge na tela da TV a figura sempre intragável do excelentíssimo senador José Sarney tentando justificar a exclusão de um tal de "túnel do tempo" que existe nos corredores do Senado o impeachment do outro igualmente intragável Fernando Collor.

Pausa para náusea.

Como assim? Excluiu como? Porquê?

Ele mesmo nos "ilumina" com toda sua sapiência:

"Olha, eu não posso censurar os historiadores encarregados de fazer a história, talvez esse episódio seja apenas um acidente que não devia ter acontecido na história do Brasil"

Acidente????

Vejam, a História não é única. Nunca foi, nem será neutra, imparcial ou a verdade absoluta. Existem diferentes pontos de vista e análises possíveis sobre diferentes momentos da história mundial. Não sou a melhor pessoa pra explanar sobre isso, teoria e metodologia nunca foram meus fortes e poderíamos discutir esse assunto por milênios. Certamente, amanhã ou depois alguém mais gabaritado poderá ter argumentos melhores que os meus sobre isso. Meus argumentos são passionais, frutos de minha paixão pela carreira que abracei.

Classificar como acidente o talvez mais emblemático movimento de mobilização da sociedade brasileira é uma aberração histórica. Ele pode achar que é um acidente, pode até concordar com o Collor, achar ele um cara legal e convidá-lo pra jantar. O que ele não pode é negar esse passado. Mas entendamos a sua lógica: povo não foi feito pra se manifestar, povo é povo só pra votar nele. E só. Cada vez que o povo pensa é algo menor, sem importância. Afinal, quem sabe o que é bom para o povo é ele.

Pausa para mais uma náusea.

O que mais me preocupa nesse caso não é o uso que está sendo feito da História do Brasil, não é a primeira nem será a última vez que isso acontece, me preocupa o silêncio da minha pretensa categoria.

Para aqueles que não sabem Historiador não é uma profissão. Sério. Acreditem.

E porquê?

Não sei precisar.

Somos ótimos em produzir conhecimento histórico, temos ótimos historiadores, pesquisadores e centros de pesquisa de excelência. Mas somos incapazes de defender nosso próprio campo. E nessa falta de mobilização se proliferam "estudos históricos" sem método e informações ditas "históricas" replicadas aos borbotões pela web.

A regulamentação* vai resolver isso? Talvez não.

Isso pode? No momento em que os Historiadores consentem, pode.




O que li sobre o assunto:



*A regulamentação da profissão não significa a proibição da atividade por qualquer pessoa, garante vagas em concursos públicos e estabelece com mais clareza o papel do Historiador na avaliação e seleção de documentos para preservação, na organização de exposições, publicações, eventos, serviços de pesquisas, e ainda na elaboração de pareceres, relatórios, planos, projetos, laudos trabalhos sobre temas históricos. Sob meu ponto de vista seria a possibilidade de no mínimo averiguar autoria e responsabilidade sobre determinada exposição por exemplo.