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domingo, 22 de agosto de 2021

Não acredito que pensei isso!!!

No mês de julho tivemos Olimpíadas, e eu amo Olimpíadas. Fui atleta na adolescência e curto muito assistir esportes. E nesse ano ainda juntou minhas férias e um friozinho ao evento. Delícia!!!

Acompanhei alguns jogos de muitas modalidades, e quando assisti o jogo da dupla de vôlei de praia me peguei pensando numa frase que deu uma super vergonha: "ela é bem gordinha né?"

WTF?????

Como assim?????

Sherol do céu, como que tu pensa um treco desse?????

Tanto o pensamento como a autocensura me levaram a refletir sobre como temos arraigadas em nossa mente esses padrões dismórficos e tóxicos de corpo.

Gente, nem vou por foto aqui por que real tenho vergonha desse meu pensamento. Mas a atleta em questão é apenas uma pessoa "fora do padrão".

O teto foi o seguinte:

- Não, ela não é gorda.

- Tá, mas e se for? Qual o problema?

- Gente, o que é ser gordo/a?

- E por que um corpo gordo/baixo/alto/ou qualquer coisa que não me diz respeito não poderia estar nas Olimpíadas???

- Que performance é essa que estabelece um padrão estético ridículo quando o que importa num esporte é o desempenho esportivo????

Sim, pensei em tudo isso e mais um pouco (#overthinker).

E perdi boa parte da partida nessa viagem hahahaha

E não termina aí: lembrei das recentes conversas que tive com o Teodoro sobre ser gordo ou não.

Ele tem 11 anos e está passando por muitas metamorfoses, e uma delas é corporal. E ele engordou bastante nesse isolamento social, que somado a fase adolescer é completamente normal.

O problema é perceber que isso tem incomodado ele. Começou com a recusa em tirar a camiseta no calor escaldante e foi até ele verbalizar que não que queria que a gente chama-se ele de gordinho ou fofo.

Alerta vermelho na cabeça de Mamãe!

Até que ponto eu tenho reforçado esse discurso gordofóbico em casa?

O trabalho tem sido esse. Tenho refletido sobre isso e monitorado fortemente as coisas que eu falo.

Talvez por isso o teto maluco sobre a jogadora de vôlei.

Eu, uma pessoa com corpo bem padrãozinho, já passei por essas paranoias de peso e etc. Mesmo que eu tenha praticamente a mesma compleição física de quando tinha 20 anos estando com 40 e parido uma criança, reconheço que o bombardeio de "barrigas negativas" nas mídias ajuda a turvar a visão sobre si.

E o esforço agora é de usar essa bagagem para que o Téo consiga se ver como alguém lindo e ponto.

A conversa aqui em casa tem sido sempre sobre as maravilhas que o nosso corpo é capaz de fazer. Valorizar as mudanças e metamorfoses como algo sagrado, bonito e essencial.

Não sei se vai funcionar, mas estamos na batalha.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sobre ser mãe de um guri: consentimento.

Ser feminista e mãe de um guri é uma grande responsabilidade.

E não por que eu ache que os homens são a personificação do mal (aquele papinho-sono de que feminista odeia os homens zzzzzz), mas por que entendo que vivemos numa cultura machista e essa cultura não se propaga no ar ou na água, ela é resultado da ação dos indivíduos que reproduzem certos comportamentos há séculos, quase sem refletir.
Entendo que meu papel como mãe de um guri é tentar de alguma forma quebrar esse ciclo vicioso.

Até aí é lindo, mas no mundo real como funciona?

Tive há algum tempo atrás a oportunidade de explicar pro Téo noções básicas sobre consentimento.

Cheguei na porta da sala de aula pra pegar o pequeno e veio uma guriazinha correndo fazer uma denúncia grave:

- Mãe do Téo, o Téo hoje me agarrou!

O dito Teodoro que já se aproximava protesta:

- Foi um abraço Mamãe!

Antes que eu pudesse raciocinar a pequena voltou para suas brincadeiras no fundo da sala e a professora me alcançou a mochila. Fim de papo.

Mas eu voltei pra casa matutando aquela situação: como explicar pro meu pequeno que mesmo uma coisa boa como um abraço não pode ser oferecido sem consentimento? Como explicar isso para uma criança de 6 anos sem que ele perca a gentileza e doçura que essa idade proporciona?

pensa....
pensa....
pensa....

Estamos vestindo o pijama depois do banho e aproveito para puxar o assunto:

- Téo, a Fulana veio me reclamar que tu agarrou ela, meu filho, explica pra mamãe. [eu cuido muito pra que ele confie em me contar sua versão dos fatos]

- Mamãe, eu só dei um abraço nela. Ela é minha amiga e eu gosto dela.

Depois de morrer de fofura retomo:

- Isso é muito bom meu filho, mas ela queria um abraço?

Teodoro me olha com uma cara tipo "Aloowwww, como eu vou saber???"

- A gente só pode tocar nas pessoas com autorização delas, tu não acha?

Daí ele me pega:

- Mas eu não pergunto pra ti, nem pro Papai se eu posso abraçar.

Putz! Em qual página do "Manual das Mães feministas eu acho essa resposta!!!!"

Ai, não tinha pensado nisso!!!!! Um par de olhos muito curiosos me encaram, e agora???

Parto pra linguagem corporal.

- É mesmo difícil isso. Mas eu e o teu pai somos da tua família, é mais fácil porque a gente sabe que se ama e sabe que pode se abraçar.

(falo e depois percebo o perigo, mas sigo)

- Se tu acha chato perguntar tu pode fazer assim (abro os braços "pedindo um abraço") e se a pessoa também abrir os braços tu cola a bochecha nela!

(agarro ele e ele ri gostoso)

- Entendi Mamãe!

- Assim fica mais fácil né? Por que se a pessoa não abrir os braços, ela não quer o abraço, daí a gente não abraça. Combinado?

- Tá. Mas eu abraço todos os meus colegas quando chego na escola.

- Mas vocês praticamente correm um pro outro de braço aberto, não é?

(risada gostosa)

- A gente é loko mãe!

(rimos os dois bem alto)

- Agora a mãe quer te pedir uma coisa. Amanhã tu pede desculpa pra Fulana?

- Por quê?

- Ela não se sentiu bem filho, ela falou que não gostou do teu abraço sem braço aberto, então acho que tu deveria dizer desculpa pra ela.

- Eu tenho ciúme.

- É vergonha Téo. (ele sempre confunde kkkk)

- Isso daí, eu tenho vergonha.

- Mas ela é tua amiga, tu disse que gosta dela, então eu acho que tu não ia gostar de ver ela triste. Né?

- Tá bom, eu vou pedir um abraço pra ela daí.

No dia seguinte, perguntei como foi e ele respondeu:

- Eu disse desculpa daí ela me abraçou, mas eu queria o abraço tá mãe.

UFA!

Missão cumprida por enquanto.

Pode não parecer muito, mas acredito e vejo os resultados dessas pequenas ações. Quero muito que o Téo seja um cara legal, que saiba respeitar e exija respeito. E acho que não preciso fazer uma lista de bibliografia pra ele (pelo menos não por enquanto), respeito se aprende na prática.

Seguimos vigilante para que ele lembre disso quando se deparar com o/a primeirx crush desacordadx por aí.

Mamães de Guris, não desistam! ;)